Terra Estreita, Mafalda Santos
Ninguém pode dar a mão a ninguém. Pelo menos, não literalmente.
Para mim, as histórias da Mafalda Santos são sempre uma surpresa agradável. Não me canso de surpreender com a imaginação desta autora portuguesa que adoro!
Terra Estreita começa no dia do “evento”, onde um ruído intenso se faz sentir em todo o mundo. Não demoraram muito a descobrir o que mudou depois desse acontecimento: o toque mata. Quem toca e quem é tocado morre instantaneamente. Milhares de pessoas sucumbem nesse mesmo dia, enquanto cinco desconhecidos formam uma aliança para sobreviver: Paula, Diana, Miguel, Leonardo e o pequeno David, que é surdo.
Ao longo dos anos, estes cinco personagens acabam por se afastar, mas a possibilidade da existência de um lugar onde estão a tentar encontrar uma cura para este toque fatal une-os uma vez mais.
Sem toque não somos humanos, não estamos vivos sequer, pensou.
É assustador perceber que a separação entre uma distopia e o mundo atual é uma linha muito ténue. Melhor ainda: será mesmo que essa linha ainda existe? Desconfio. Em Terra Estreita, a Mafalda Santos aborda muitos temas que em todo são semelhantes com os dias de hoje. Anos depois do “evento”, encontramos uma sociedade que é obrigada a relacionar-se à distância, recorrendo a tecnologia para se comunicar e simular afeto. Assistimos também à forma desumana como muitas pessoas são tratadas, onde o medo de ser tocado gera uma série de novas regras e realidades para os mais desprotegidos. Será a humanidade capaz de sobreviver assim? Onde é que eu já vi isto?
Teres de lembrar constantemente a outros que és humano, é em si a pior forma de desumanização.
Esta narrativa abre-nos espaço para refletir sobre uma sociedade em decadência, onde o abuso de poder se evidencia e a passividade perante injustiças é gritante. Mas aqui, ninguém pode dar a mão a ninguém. Pelo menos, não literalmente.
E por aí, já leram Terra Estreita?



